quarta-feira, 6 de novembro de 2013

NINFEIAS* nasce


 começou a florescer o NINFEIAS - Núcleo de INvestigações FEminIstAS, viva!

concebido a partir de uma ideia que venho matutando já tem um tempo, em função das experiências e trocas feministas que tive nos últimos anos, em ouro preto, o NINFEIAS pretende ser um núcleo que fomente a pesquisa de teorias e temas feministas, tanto no seu aspecto teórico, quanto no que diz respeito à experimentação de práticas performativas, alimentadas por essas questões. ou seja, ele tem duplo viés: temático e estético; delimitando assim sua relação com o campo das artes cênicas. o interesse é que funcione tanto como um espaço de pesquisa e criação para as estudantes, como de troca e participação - além da pesquisa e criação - para as mulheres da comunidade
já tendo iniciado algumas conversas com thaiz cantasini - egressa do curso de licenciatura em artes cênicas - e gerliani mendes - jornalista, com experiências teatrais, também formada na ufop - sobre o interesse de, em ouro preto, desenvolver esses experimentos e ações e aprofundar o estudo teórico, resolvemos concretizar a ideia e, por meio de uma chamamento entre as mulheres que já tinham participado de eventos feministas conosco (bia mendes, daniela maia, heloísa mandarelli, olga penna), foi feita a primeira reunião, da qual, infelizmente, não pude participar, por motivos de saúde.
e nessa segunda, dia 04, fizemos a segunda reunião, na qual pude apresentar a ideia do núcleo para as interessadas. e foi um encontro muito produtivo e instigante, pois tivemos a chegada de mais cinco mulheres que fazem parte também de um grupo de estudos do IFMG, de feminismo, arte e tecnologia (convidadas por olga, que também faz parte do grupo). como grupos irmãos, resolvemos mesclar e alimentar mutuamente nossas discussões e práticas.
nesse dia, após discutir os objetivos do núcleo, propus que começássemos a preparar uma ação para o dia 25 de novembro, dia internacional de combate à violência contra a mulher, e começamos a levantar, dentro deste tema, os aspectos que interessavam, particularmente, a cada uma de nós: exploração sexual, violência simbólica, cultura do estupro, foram algumas das questões que apareceram. para a próxima reunião, ficamos de levantar materiais, imagens e proposições de ações individuais e coletivas.



*embora seja também uma sigla, o nome do núcleo foi concebido poeticamente a partir do nome das plantas aquáticas perenes (e que aqui trago em fotos), algumas delas conhecidas como flor de lótus, e em lembrança de um trecho do texto terra oceana, de d. danis.

domingo, 6 de outubro de 2013

ensaio de Clóvis Domingos publicado na 6ª edição da Performatus

A sexta edição da Revista Performatus (http://performatus.net/edicoes/6/) já se encontra on-line!!! 

Nesta edição há a publicação de um ensaio meu: "É o performer um imigrante?"

Essa revista é muito interessante e repleta de ensaios, imagens, estudos, traduções, resenhas e entrevistas abordando o universo da arte da performance.

Confiram e divulguem, por favor!

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

COISA DO SI




“Coisa do si” é uma proposta de encontro entre criadores, a partir da investigação do teatro desessência – ópera da palavra e dança de expressão. Uma feitura em processo produzindo conexões vivas com a performance-teatro-cinema-literatura-filosofia.

O acontecimento reúne os artistas Admar Fernandes, Clarissa Alcantara, Inês, Joyce Malta, Leandro Silva Acácio, Lissandra Guimarães, Sabrina Andrade, Saulo Salomão e Tereza Marinho. O processo teve início em julho de 2013 e agora abre as portas para 4 encontros com o público na Gruta (Horto), espaço que serviu de estadia para esta vivência.

Nove quadros se cruzam a partir da vivência de dois atos-processos – o corpobiográfico e o duplo si: um corpo é lançado no espaço e seu único objeto é ele mesmo, uma presença-ausência que se dispõe à vivência do ato de estar ali sendo multiplicitado. Cria-se um platô: "Um platô não é nada além disso: um encontro entre devires, um entrecruzamento de linhas, de fluxos, ou uma percolação — fluxos que, ao se encontrarem, modificam seu movimento e sua estrutura." Um encontro com o pensamento de Gilles Deleuze e Félix Guattari.

Sinopse
Escorreu uma coisa que não importa mais, a significância. Como, no meio desse mar revolto, aberto, oceânico, pode existir uma terra firme? Zona indiscernível. Os quadros começam a se misturar uns aos outros. Os corpos brincam e dançam e dançando ocupam todo o lugar. Multiplicação de estados. Um modo de existência que pede uma outra maneira de viver. Útero, gruta. Como parto de mim?

Ficha técnica
Criadores: Admar Fernandes, Clarissa Alcantara, Inês, Joyce Malta, Leandro Silva Acacio, Lissandra Guimarães, Sabrina Andrade, Saulo Salomão e
Vídeo e fotografia em ato/processo: Tereza Marinho
Colaboração: Mariana Teixeira

Coisa do si

Data: 4, 11, 18 e 25 de outubro, sextas-feiras
Horário: 21h
Local: Gruta! Espaço de Arte – rua Pitangui, 3.613c, Horto
Ingressos: Gratuito
Lotação: 15 pessoas

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Mestrado em Artes Cênicas da UFOP

Aprovado pela Capes o projeto que institui o Programa de Mestrado em Artes Cênicas da UFOP!
http://www.capes.gov.br/avaliacao/cursos-novos-envio-de-propostas-e-resultado

Seminário Arte e Diferença


As inscrições para o Seminário Arte e Diferença já estão abertas.
O seminário acontecerá nos dias 24, 25 e 26 de outubro no Teatro Universitário da UFMG.
O Seminário Arte e Diferença pretende estabelecer um diálogo interdisciplinar entre as Artes e as áreas da Saúde Físico-Motora e Mental para pensar o local da diferença nos processos artísticos.
Existirão 3 Simpósios Temáticos que receberão inscrições para comunicação.
1- Arte e Saúde Mental;
2- Arte e Processos Criativos;
3- Arte e Inclusão
Programação
Coordenação
Profa. Dra. Denise Araujo Pedron (UFMG)
Profa. Ms. Eliane Maria de Abreu (UEMG)
Prof. Ms. Clóvis Domingos dos Santos
  • Dia 1 – 24/10
Manhã
08:00 – 08:30 Credenciamento – sala Otávio Cardoso – Teatro Universitário
08:30 – 09:00 Abertura
09:00 – 10:30 – Conferência de Abertura: Criação Artística, Pulsão e Sublimação – Prof. Guilherme Massara (UFMG)
11:00 – 12:30 – Mesa redonda: Arte e experiência criativa
Teatro desessência: o que nasce do esquecimento. Profa Dra. Clarissa Alcantara (N3Ps – Núcleo de Pesquisa)
Desassossego em Branco – Tuca Pinheiro, Oscar Capucho e Renata Mara.
Terceira Dança – Profa. Ms. Marcelle Louzada
Mediadora: Prof. Dra. Denise PedronTarde
Sessões de Comunicação
14:00 – 15:00 – Primeira Sessão de Comunicação
15:30 – 16:00 – Café
16:00 – 17:00 – Segunda Sessão de Comunicação
17:00 – 18:30 – Atividade Artística – Núcleo de Pesquisa N3Ps – Nômades Permanentes Pesquisam e Performam
• Exibição de vídeo e conversa com integrantes do núcleo
• Lançamento de livro: Corpoalíngua: performance e esquizoanálise
  • Dia 2 – 25/10
Manhã
Sessões de Comunicação
09:00 – 10:00 – Primeira Sessão de Comunicação
10:00 – 10:30 – Café
10:30 – 11:30 – Segunda Sessão de Comunicação
11:30 – 12:30 – Atividade Artística – Hoje são mistérios gozosos meus surtos psicóticos – vídeo-performance e bate papo com de Viviane Ferreira – Núcleo de Pesquisa Sapos e AfogadosTarde
14:00 – 16:00 – Mesa redonda: De perto ninguém é normal.
Música e saúde mental – Prof. Paulo Thomaz (CERSAM)
Teatro e saúde mental – Prof. Juliana Barreto (Núcleo de Pesquisa Sapos e Afogados)
Arte e Deficiência – Prof. Luciane Kattaoui Madureira (Crepúsculo Escola de Arte)
Mediadora: Profa. Ms. Eliane AbreuTarde
17:30 – 18:30 – Atividade Artística – Música (coordenação: Paulo Thomaz)
19:30 – Atividade Artística – Show – Edu Kneip apresenta “Ed Galantti e o tesouro do Morro do Castelo”
  • Dia 3 – 26/10
Manhã
10:00 – 12:00 Conferência de Encerramento: O próprio, o pensar poético e a criação artística – Prof. Dr. Antonio Jardim (UFRJ)
12:00 às 13:00 Atividade Artística- Espetáculo Teatral – Núcleo Sapos e AfogadosCarga Horária Total do Seminário: 22 horas
Maiores informações aqui

terça-feira, 9 de abril de 2013

AQUI PERFORMAMOS COM OS MORTOS


Aqui Performamos com os Mortos

Em Ouro Preto, redolente, vaga um remoto estar - presente”.
Carlos Drummond de Andrade

Tudo é intervenção!

O Obscena propôs uma série de intervenções cênico-performáticas como parte da programação do Simpósio Internacional Corpolítico, ocorrido em Ouro Preto entre 11 e 15 de Março de 2013.
Simultaneamente aconteceram cinco ações poético-urbanas: “Salve Padilha, cheia de Graça” (que começou na Ponte Marília de Dirceu e terminou na Igreja do Rosário); “Espaço Disponível: Anuncie Aqui” (que ocupou a Feira de Artesanato perto da Igreja de São Francisco de Assis e vários lugares do centro da cidade); “Infravermelho” (também realizada na Ponte Marília de Dirceu) e “O Espaço do Silêncio” (que juntamente com “O Suicidado”), que se instalou na Praça Tiradentes.

O pesquisador e performer Matheus Silva afirmou que criamos um “mar vermelho” que invadiu a cidade barroca. Sim, nossas presenças afetaram o cotidiano de Ouro Preto. Mas também acredito que a cidade performou. Cidade misteriosa, de pura teatralidade, misto de religião e espetáculo, paisagem habitada por moradores, turistas, estudantes, heróis e espíritos, espaço vertiginoso no qual o passado e a História respiram juntos.

Nas palavras de Alexander Freitas (2009:146): “o espaço arquitetônico de Ouro Preto, metaforicamente, como a maré cheia, preside uma invasão – uma imposição – da imagética setenticista ao presente”. Uma forte intervenção urbana.

E penso que nossas ações, no presente, de alguma forma, atualizaram o passado. Foram invadidas por fatos históricos e pelo imaginário coletivo existente em Ouro Preto. Os espaços interviram sobre nossos trabalhos artísticos numa tessitura de tramas da memória. As igrejas e o som dos sinos, o silêncio dos cemitérios, as ladeiras e seus candelabros, a arte sacra, tudo é intervenção.

Fiquei pensando: o que seria performar num espaço teatralizado que grita suas cores e formas? Que espetaculariza sua História? Lugar que cotidianamente acontece uma performance dos moradores e personagens de rua? Acredito que seja possível dialogar com esses espaços e suas simbologias. E mais: praticá-los de forma liminar e fronteiriça. Duplicar seus usos e sentidos. Nossas ações e manifestações cênicas “transbordam as taxonomias e configuram-se como corpos mestiços a partir dos entrecruzamentos e hibridações entre os dispositivos das artes cênicas e visuais” (DIÉGUEZ, 2011:51), elementos preponderantes na cultura barroca. Corpos políticos por entrecruzarem tempos e espaços. Abordarei tal aspecto no tópico a seguir.

Espaços Entrecruzados: ATUALIZE AQUI

A cruz é a síntese de dois espaços de poder da arquitetura barroca: a igreja e os cemitérios (FREITAS, 2009). A cruz também é o encontro de duas linhas temporais: de um momento que segue seu fluxo no instante se deparando com um momento já vivido. Morte e vida. Acontecimento e acontecido. Nesse “entre-lugar”, nós obscênicos, acontecemos.

A Padilha de Erica Vilhena se metamorfoseou numa espécie de santa, caminhando descalça como um ato de fé e sacrifício, e depositando oferendas (terços, conchas e pétalas de rosa) nas portas das igrejas que emprestam seus nomes em homenagem às mártires católicas. Um corpo em PROCISSÃO. A cada estação, cada parada, uma ação ritual. Uma Pomba-Gira recatada e bem comportada desfilou pelas ruas de Ouro Preto e a sensação verbalizada pela performer, era de estar sendo vigiada o tempo todo. A iconografia barroca nos revelava que a cidade tem olhos. Muito diferente de uma caminhada perigosa, feita por uma Padilha atrevida, numa outra experimentação ocorrida no baixo centro de Belo Horizonte, nas ladeiras ouro-pretanas sentimos “pulular os olhos-da-cidade, que aqui, são explicitamente metáforas dos olhos-de-Deus” (FREITAS, 2009: 200).


Fotos de Luciane Trevisan


Santa Efigênia, Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora do Pilar ou Marília de Dirceu, entre outras figuras femininas, se atualizaram no corpo peregrino da performer. Inclusive, Erica distribuiu suspiros na conhecida “Ponte dos Suspiros”, no bairro Antônio Dias, local no qual se conta que Marília de Dirceu se encontrava com seu amado Tomás Antônio Gonzaga. Nessa gestualidade performática cruza-se uma composição corporal, espacial e temporal. Reencontro de arquiteturas. Presentificação de um tempo que ainda dura.

Da mesma forma que a questão do suicídio e extermínio dos nossos índios guaranis kaiowás (tratada nos trabalhos “Espaço do Silêncio” e “O Suicidado”) voltou a ser denunciada na Praça central, local no qual Tiradentes foi assassinado. Nina Caetano e suas pequenas cruzes, quase uma santa colocada num altar branco que aos poucos se mancha de vermelho. Leandro Acácio, num esforço de resistência física e psicológica, a sustentar um pedaço de tronco seco corporificando a imagem de um crucificado. O silêncio que se converte em discurso. Leandro e seu “corpo-estátua”. Ambos os trabalhos nos olham, criando quase um constrangimento.

Além da possibilidade de se erguer publicamente um monumento, ainda que temporário (em memória da injustiça cometida contra os expatriados indígenas) sob outro “palco” permanente, a praça. Na ocupação espacial desses dois trabalhos, temos uma teatralidade e performatividade em estado de permanente fricção, atravessadas por narrativas históricas (logo ficcionais) e irrupções do real.

As imagens de uma amordaçada e um enforcado, seus corpos quase imóveis e se torna impossível não se lembrar da morte do famoso inconfidente Tiradentes. Corpos rendidos. Re-ligação de personagens rebelados em tempos diferenciados. Os turistas- espectadores que fotografavam aquele acontecimento cênico registravam o espaço e seu duplo, a sobreposição de tempos, fatos, atos e ventos.

Em “Infravermelho”, mais uma mulher, agora cega, carregando maçãs do amor e tateando o corpo de velhas pedras e muros da cidade. Marcelle Louzada, impossibilitada de ver o que se passava e ao mesmo tempo se oferecendo como um corpo em plena visualidade poética. Um quadro vivo de pintura impressionista. Ela se arrastava, tropeçava, buscava pontos de apoio e também parecia ser uma santa fugitiva de algum altar. Em outros momentos era como ter a visão de um “corpo fantasma” como uma daquelas almas perdidas que rondam o fabulário ouro-pretano. Os olhos tampados, como que furados e vazados, me remetiam à ideia de um corpo torturado.

Em “Espaço Disponível: Anuncie Aqui” (com Matheus Silva, Joyce Malta, Lissandra Guimarães, Flávia Fantini e Sabrina Andrade), a provocação ao comércio local, às feiras, à herança dos exploradores. Nem tudo reluz e nem tudo é ouro. Ainda haveria espaços possíveis em Ouro Preto para se divulgar a venda de alguma coisa? O turismo alimenta a economia e tudo é propaganda, disputa, indicação de hotel e restaurante; se paga para se visitar as igrejas e museus. Até quando seduzidos e viciados pela História?

Além da escolha nessa ação, do corpo como suporte para pequenos textos compondo um cartaz. Também uma possível alusão às placas das repúblicas estudantis anexadas aos corpos dos universitários. Outra aproximação. Anuncie aqui: seu poder, o peso da tradição, o machismo secular, sua perversidade. Anuncie aqui: “Bixo”, lixo, nicho de corpos domesticados. Anuncie aqui a humilhação e a violência, feito as placas com os valores de compra dos negros africanos contrabandeados para servirem de escravos para seus senhores europeus.

No conjunto desta “aparição-presentação” artística tudo dialoga com esse “mar vermelho”: sangue, dor, fé, luxo, ostentação, sobrenatural, espaço e poder.

Uma vez alguém proclamou: “Aqui em Ouro Preto andamos sobre os mortos”. Naquela tarde de quinta-feira, 14 de Março, poderíamos dizer: Aqui performamos com eles. Uma experiência fora do tempo. Eles reviveram através de nossos trabalhos. Pois estão vivos nos espaços que escolhemos ocupar.

Espaços em Branco

Caí numa armadilha? Estarei de alguma forma historicizando uma vivência coletiva numa visão pessoal do que fizemos? Tudo o que aqui está escrito já é passado. Foi-se. É uma cruz. Tudo se afoga com aquele “mar vermelho”: referências, identidades, calendários e contextos.

Que venha o desconhecido e o imprevisível!

Agora desejo olhar para nossas pesquisas como corpos com tatuagens de rena, efêmeras e livres para novos lugares e encontros. Podendo ser bicho, gente, coisa, cor, onda, linha, vôo, nada. Anúncios impossíveis.

Espaços em branco: PERFORME AQUI!

Referências:

DIÉGUEZ, Ileana. Cenários Liminares: teatralidades, performances e política. Tradução de Luis Alberto Alonso e Angela Reis. Uberlândia: EDUFU, 2011.

FREITAS, Alexander. Imagens da Memória Barroca de Ouro Preto: o espaço barroco como educador do imaginário ouro-pretano. Doutorado. Faculdade de Educação. São Paulo: USP, 2009. 308 p.