domingo, 6 de outubro de 2013

ensaio de Clóvis Domingos publicado na 6ª edição da Performatus

A sexta edição da Revista Performatus (http://performatus.net/edicoes/6/) já se encontra on-line!!! 

Nesta edição há a publicação de um ensaio meu: "É o performer um imigrante?"

Essa revista é muito interessante e repleta de ensaios, imagens, estudos, traduções, resenhas e entrevistas abordando o universo da arte da performance.

Confiram e divulguem, por favor!

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

COISA DO SI




“Coisa do si” é uma proposta de encontro entre criadores, a partir da investigação do teatro desessência – ópera da palavra e dança de expressão. Uma feitura em processo produzindo conexões vivas com a performance-teatro-cinema-literatura-filosofia.

O acontecimento reúne os artistas Admar Fernandes, Clarissa Alcantara, Inês, Joyce Malta, Leandro Silva Acácio, Lissandra Guimarães, Sabrina Andrade, Saulo Salomão e Tereza Marinho. O processo teve início em julho de 2013 e agora abre as portas para 4 encontros com o público na Gruta (Horto), espaço que serviu de estadia para esta vivência.

Nove quadros se cruzam a partir da vivência de dois atos-processos – o corpobiográfico e o duplo si: um corpo é lançado no espaço e seu único objeto é ele mesmo, uma presença-ausência que se dispõe à vivência do ato de estar ali sendo multiplicitado. Cria-se um platô: "Um platô não é nada além disso: um encontro entre devires, um entrecruzamento de linhas, de fluxos, ou uma percolação — fluxos que, ao se encontrarem, modificam seu movimento e sua estrutura." Um encontro com o pensamento de Gilles Deleuze e Félix Guattari.

Sinopse
Escorreu uma coisa que não importa mais, a significância. Como, no meio desse mar revolto, aberto, oceânico, pode existir uma terra firme? Zona indiscernível. Os quadros começam a se misturar uns aos outros. Os corpos brincam e dançam e dançando ocupam todo o lugar. Multiplicação de estados. Um modo de existência que pede uma outra maneira de viver. Útero, gruta. Como parto de mim?

Ficha técnica
Criadores: Admar Fernandes, Clarissa Alcantara, Inês, Joyce Malta, Leandro Silva Acacio, Lissandra Guimarães, Sabrina Andrade, Saulo Salomão e
Vídeo e fotografia em ato/processo: Tereza Marinho
Colaboração: Mariana Teixeira

Coisa do si

Data: 4, 11, 18 e 25 de outubro, sextas-feiras
Horário: 21h
Local: Gruta! Espaço de Arte – rua Pitangui, 3.613c, Horto
Ingressos: Gratuito
Lotação: 15 pessoas

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Mestrado em Artes Cênicas da UFOP

Aprovado pela Capes o projeto que institui o Programa de Mestrado em Artes Cênicas da UFOP!
http://www.capes.gov.br/avaliacao/cursos-novos-envio-de-propostas-e-resultado

Seminário Arte e Diferença


As inscrições para o Seminário Arte e Diferença já estão abertas.
O seminário acontecerá nos dias 24, 25 e 26 de outubro no Teatro Universitário da UFMG.
O Seminário Arte e Diferença pretende estabelecer um diálogo interdisciplinar entre as Artes e as áreas da Saúde Físico-Motora e Mental para pensar o local da diferença nos processos artísticos.
Existirão 3 Simpósios Temáticos que receberão inscrições para comunicação.
1- Arte e Saúde Mental;
2- Arte e Processos Criativos;
3- Arte e Inclusão
Programação
Coordenação
Profa. Dra. Denise Araujo Pedron (UFMG)
Profa. Ms. Eliane Maria de Abreu (UEMG)
Prof. Ms. Clóvis Domingos dos Santos
  • Dia 1 – 24/10
Manhã
08:00 – 08:30 Credenciamento – sala Otávio Cardoso – Teatro Universitário
08:30 – 09:00 Abertura
09:00 – 10:30 – Conferência de Abertura: Criação Artística, Pulsão e Sublimação – Prof. Guilherme Massara (UFMG)
11:00 – 12:30 – Mesa redonda: Arte e experiência criativa
Teatro desessência: o que nasce do esquecimento. Profa Dra. Clarissa Alcantara (N3Ps – Núcleo de Pesquisa)
Desassossego em Branco – Tuca Pinheiro, Oscar Capucho e Renata Mara.
Terceira Dança – Profa. Ms. Marcelle Louzada
Mediadora: Prof. Dra. Denise PedronTarde
Sessões de Comunicação
14:00 – 15:00 – Primeira Sessão de Comunicação
15:30 – 16:00 – Café
16:00 – 17:00 – Segunda Sessão de Comunicação
17:00 – 18:30 – Atividade Artística – Núcleo de Pesquisa N3Ps – Nômades Permanentes Pesquisam e Performam
• Exibição de vídeo e conversa com integrantes do núcleo
• Lançamento de livro: Corpoalíngua: performance e esquizoanálise
  • Dia 2 – 25/10
Manhã
Sessões de Comunicação
09:00 – 10:00 – Primeira Sessão de Comunicação
10:00 – 10:30 – Café
10:30 – 11:30 – Segunda Sessão de Comunicação
11:30 – 12:30 – Atividade Artística – Hoje são mistérios gozosos meus surtos psicóticos – vídeo-performance e bate papo com de Viviane Ferreira – Núcleo de Pesquisa Sapos e AfogadosTarde
14:00 – 16:00 – Mesa redonda: De perto ninguém é normal.
Música e saúde mental – Prof. Paulo Thomaz (CERSAM)
Teatro e saúde mental – Prof. Juliana Barreto (Núcleo de Pesquisa Sapos e Afogados)
Arte e Deficiência – Prof. Luciane Kattaoui Madureira (Crepúsculo Escola de Arte)
Mediadora: Profa. Ms. Eliane AbreuTarde
17:30 – 18:30 – Atividade Artística – Música (coordenação: Paulo Thomaz)
19:30 – Atividade Artística – Show – Edu Kneip apresenta “Ed Galantti e o tesouro do Morro do Castelo”
  • Dia 3 – 26/10
Manhã
10:00 – 12:00 Conferência de Encerramento: O próprio, o pensar poético e a criação artística – Prof. Dr. Antonio Jardim (UFRJ)
12:00 às 13:00 Atividade Artística- Espetáculo Teatral – Núcleo Sapos e AfogadosCarga Horária Total do Seminário: 22 horas
Maiores informações aqui

terça-feira, 9 de abril de 2013

AQUI PERFORMAMOS COM OS MORTOS


Aqui Performamos com os Mortos

Em Ouro Preto, redolente, vaga um remoto estar - presente”.
Carlos Drummond de Andrade

Tudo é intervenção!

O Obscena propôs uma série de intervenções cênico-performáticas como parte da programação do Simpósio Internacional Corpolítico, ocorrido em Ouro Preto entre 11 e 15 de Março de 2013.
Simultaneamente aconteceram cinco ações poético-urbanas: “Salve Padilha, cheia de Graça” (que começou na Ponte Marília de Dirceu e terminou na Igreja do Rosário); “Espaço Disponível: Anuncie Aqui” (que ocupou a Feira de Artesanato perto da Igreja de São Francisco de Assis e vários lugares do centro da cidade); “Infravermelho” (também realizada na Ponte Marília de Dirceu) e “O Espaço do Silêncio” (que juntamente com “O Suicidado”), que se instalou na Praça Tiradentes.

O pesquisador e performer Matheus Silva afirmou que criamos um “mar vermelho” que invadiu a cidade barroca. Sim, nossas presenças afetaram o cotidiano de Ouro Preto. Mas também acredito que a cidade performou. Cidade misteriosa, de pura teatralidade, misto de religião e espetáculo, paisagem habitada por moradores, turistas, estudantes, heróis e espíritos, espaço vertiginoso no qual o passado e a História respiram juntos.

Nas palavras de Alexander Freitas (2009:146): “o espaço arquitetônico de Ouro Preto, metaforicamente, como a maré cheia, preside uma invasão – uma imposição – da imagética setenticista ao presente”. Uma forte intervenção urbana.

E penso que nossas ações, no presente, de alguma forma, atualizaram o passado. Foram invadidas por fatos históricos e pelo imaginário coletivo existente em Ouro Preto. Os espaços interviram sobre nossos trabalhos artísticos numa tessitura de tramas da memória. As igrejas e o som dos sinos, o silêncio dos cemitérios, as ladeiras e seus candelabros, a arte sacra, tudo é intervenção.

Fiquei pensando: o que seria performar num espaço teatralizado que grita suas cores e formas? Que espetaculariza sua História? Lugar que cotidianamente acontece uma performance dos moradores e personagens de rua? Acredito que seja possível dialogar com esses espaços e suas simbologias. E mais: praticá-los de forma liminar e fronteiriça. Duplicar seus usos e sentidos. Nossas ações e manifestações cênicas “transbordam as taxonomias e configuram-se como corpos mestiços a partir dos entrecruzamentos e hibridações entre os dispositivos das artes cênicas e visuais” (DIÉGUEZ, 2011:51), elementos preponderantes na cultura barroca. Corpos políticos por entrecruzarem tempos e espaços. Abordarei tal aspecto no tópico a seguir.

Espaços Entrecruzados: ATUALIZE AQUI

A cruz é a síntese de dois espaços de poder da arquitetura barroca: a igreja e os cemitérios (FREITAS, 2009). A cruz também é o encontro de duas linhas temporais: de um momento que segue seu fluxo no instante se deparando com um momento já vivido. Morte e vida. Acontecimento e acontecido. Nesse “entre-lugar”, nós obscênicos, acontecemos.

A Padilha de Erica Vilhena se metamorfoseou numa espécie de santa, caminhando descalça como um ato de fé e sacrifício, e depositando oferendas (terços, conchas e pétalas de rosa) nas portas das igrejas que emprestam seus nomes em homenagem às mártires católicas. Um corpo em PROCISSÃO. A cada estação, cada parada, uma ação ritual. Uma Pomba-Gira recatada e bem comportada desfilou pelas ruas de Ouro Preto e a sensação verbalizada pela performer, era de estar sendo vigiada o tempo todo. A iconografia barroca nos revelava que a cidade tem olhos. Muito diferente de uma caminhada perigosa, feita por uma Padilha atrevida, numa outra experimentação ocorrida no baixo centro de Belo Horizonte, nas ladeiras ouro-pretanas sentimos “pulular os olhos-da-cidade, que aqui, são explicitamente metáforas dos olhos-de-Deus” (FREITAS, 2009: 200).


Fotos de Luciane Trevisan


Santa Efigênia, Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora do Pilar ou Marília de Dirceu, entre outras figuras femininas, se atualizaram no corpo peregrino da performer. Inclusive, Erica distribuiu suspiros na conhecida “Ponte dos Suspiros”, no bairro Antônio Dias, local no qual se conta que Marília de Dirceu se encontrava com seu amado Tomás Antônio Gonzaga. Nessa gestualidade performática cruza-se uma composição corporal, espacial e temporal. Reencontro de arquiteturas. Presentificação de um tempo que ainda dura.

Da mesma forma que a questão do suicídio e extermínio dos nossos índios guaranis kaiowás (tratada nos trabalhos “Espaço do Silêncio” e “O Suicidado”) voltou a ser denunciada na Praça central, local no qual Tiradentes foi assassinado. Nina Caetano e suas pequenas cruzes, quase uma santa colocada num altar branco que aos poucos se mancha de vermelho. Leandro Acácio, num esforço de resistência física e psicológica, a sustentar um pedaço de tronco seco corporificando a imagem de um crucificado. O silêncio que se converte em discurso. Leandro e seu “corpo-estátua”. Ambos os trabalhos nos olham, criando quase um constrangimento.

Além da possibilidade de se erguer publicamente um monumento, ainda que temporário (em memória da injustiça cometida contra os expatriados indígenas) sob outro “palco” permanente, a praça. Na ocupação espacial desses dois trabalhos, temos uma teatralidade e performatividade em estado de permanente fricção, atravessadas por narrativas históricas (logo ficcionais) e irrupções do real.

As imagens de uma amordaçada e um enforcado, seus corpos quase imóveis e se torna impossível não se lembrar da morte do famoso inconfidente Tiradentes. Corpos rendidos. Re-ligação de personagens rebelados em tempos diferenciados. Os turistas- espectadores que fotografavam aquele acontecimento cênico registravam o espaço e seu duplo, a sobreposição de tempos, fatos, atos e ventos.

Em “Infravermelho”, mais uma mulher, agora cega, carregando maçãs do amor e tateando o corpo de velhas pedras e muros da cidade. Marcelle Louzada, impossibilitada de ver o que se passava e ao mesmo tempo se oferecendo como um corpo em plena visualidade poética. Um quadro vivo de pintura impressionista. Ela se arrastava, tropeçava, buscava pontos de apoio e também parecia ser uma santa fugitiva de algum altar. Em outros momentos era como ter a visão de um “corpo fantasma” como uma daquelas almas perdidas que rondam o fabulário ouro-pretano. Os olhos tampados, como que furados e vazados, me remetiam à ideia de um corpo torturado.

Em “Espaço Disponível: Anuncie Aqui” (com Matheus Silva, Joyce Malta, Lissandra Guimarães, Flávia Fantini e Sabrina Andrade), a provocação ao comércio local, às feiras, à herança dos exploradores. Nem tudo reluz e nem tudo é ouro. Ainda haveria espaços possíveis em Ouro Preto para se divulgar a venda de alguma coisa? O turismo alimenta a economia e tudo é propaganda, disputa, indicação de hotel e restaurante; se paga para se visitar as igrejas e museus. Até quando seduzidos e viciados pela História?

Além da escolha nessa ação, do corpo como suporte para pequenos textos compondo um cartaz. Também uma possível alusão às placas das repúblicas estudantis anexadas aos corpos dos universitários. Outra aproximação. Anuncie aqui: seu poder, o peso da tradição, o machismo secular, sua perversidade. Anuncie aqui: “Bixo”, lixo, nicho de corpos domesticados. Anuncie aqui a humilhação e a violência, feito as placas com os valores de compra dos negros africanos contrabandeados para servirem de escravos para seus senhores europeus.

No conjunto desta “aparição-presentação” artística tudo dialoga com esse “mar vermelho”: sangue, dor, fé, luxo, ostentação, sobrenatural, espaço e poder.

Uma vez alguém proclamou: “Aqui em Ouro Preto andamos sobre os mortos”. Naquela tarde de quinta-feira, 14 de Março, poderíamos dizer: Aqui performamos com eles. Uma experiência fora do tempo. Eles reviveram através de nossos trabalhos. Pois estão vivos nos espaços que escolhemos ocupar.

Espaços em Branco

Caí numa armadilha? Estarei de alguma forma historicizando uma vivência coletiva numa visão pessoal do que fizemos? Tudo o que aqui está escrito já é passado. Foi-se. É uma cruz. Tudo se afoga com aquele “mar vermelho”: referências, identidades, calendários e contextos.

Que venha o desconhecido e o imprevisível!

Agora desejo olhar para nossas pesquisas como corpos com tatuagens de rena, efêmeras e livres para novos lugares e encontros. Podendo ser bicho, gente, coisa, cor, onda, linha, vôo, nada. Anúncios impossíveis.

Espaços em branco: PERFORME AQUI!

Referências:

DIÉGUEZ, Ileana. Cenários Liminares: teatralidades, performances e política. Tradução de Luis Alberto Alonso e Angela Reis. Uberlândia: EDUFU, 2011.

FREITAS, Alexander. Imagens da Memória Barroca de Ouro Preto: o espaço barroco como educador do imaginário ouro-pretano. Doutorado. Faculdade de Educação. São Paulo: USP, 2009. 308 p.



sexta-feira, 22 de março de 2013


Ensaios sobre a ausência: Duas experiências – O Projeto Voyzeck e Um noturno para o chá das cinco.

Fotografia é o retrato de um côncavo, de uma falta, de uma ausência? (Clarice Lispector)

Dois espetáculos presentes na programação do CORPOLÍTICO, esses trabalhos envolveram a presença de professores e alunos do curso de artes cênicas da UFOP e refletem as investigações atuais desenvolvidas no Departamento de Artes sobre questões da cena contemporânea.  A presença do corpo e relações decorrentes com novas interações com novas tecnologias e mídias artísticas tornam-se pontos fulcrais na produção de significados cênicos, e conduzem o olhar espectador a novas dimensões, físicas e virtuais, de diálogo com elementos tradicionalmente identificados como construtores da natureza cênica, a saber, o espaço, a luz, o texto, o ator e a cenografia. Opta-se, nesse texto, por abordar esses espetáculos como exemplos dialógicos e concernentes às discussões encaminhadas durante todo o evento, onde imbricações estéticas e políticas nortearam as múltiplas reflexões e vozes que se manifestaram durante os debates e mesas redondas, devido às características que vamos, a seguir, tentar refletir.
Em Projeto Voyzeck, percebe-se, desde o início a dicotomia do discurso: os atores não estão lá. Lá, digamos, diante do público, como se espera de uma montagem teatral. Concebido a partir de dois espaços de interação, um estúdio e uma sala de apresentação, a relação dos espectadores, dispostos em uma relação aparentemente tradicional de frontalidade entre palco-plateia,  provoca uma sensação de descompasso inicial quando se percebe que os atores não estão presentes, mas se apresentam projetados sobre uma parede branca. Após um estranhamento inicial, a montagem se estabelece em um lugar entre cinema, instalação e performance, devido às interações da música de uma bateria tocada ao vivo, atores que entram e saem da sala e dialogam com as imagens projetadas, e sons que se escutam em uma sala ao lado. O espetáculo nos convida a sair pela porta de acesso que permanece aberta o tempo todo, causando curiosidade quando se percebe que algo acontece em outro lugar, que não se tem acesso diretamente através das imagens na tela. Nesse sentido, um outro jogo se instala:  a curiosidade de apreender o todo, saber o que acontece no outro ambiente, relacionar através da experiência do espectador esses vários elementos que evoluem em fragmentos, indícios, rasuras e vestígios de informações, mediadas pelo vídeo, virtualidade e ausência simultâneas. Identificando-se essas questões potenciais, o deslocamento de espaço apresenta-se, ao mesmo tempo, como uma transgressão e uma possibilidade, ambos os elementos caracterizando o jogo interativo entre o espectador e a cena. Na outra sala, a surpresa: um estúdio, como de TV, está instalado, onde os atores interpretam diante da câmera. Algo de voyeurístico e de proibido, a invasão do espaço de gravação, onde o diretor/técnico fornece instruções aos atores e a cena gravada é exibida em tempo real na outra sala. Está então, estabelecida claramente a regra do jogo: o espectador busca algo que já se foi, o acontecido, mesmo em tempo real, nunca totalmente apreendido; Em um espaço, o corpo midiatizado, torna-se artificialmente construído como uma referência passada, ausente, como imagem projetada, artificialmente instaurada em um virtual espaço-tempo de experiência. Na outra sala, o silêncio do estúdio, o corpo físico presente e desconstruído do sentido da experiência do aqui e agora, catapultado para a possibilidade do vir a ser, reconfigurado pelo olho da câmera. Entre esse universo de possibilidades situa-se a experiência do espectador, reconstruindo as informações, deslocando-se pelos espaços, reunindo os fragmentos da cena, dos corpos, do personagem Voyzeck estilhaçado em presente e passado, simultaneamente reinventado. 
Em Um noturno para o chá das cinco, instaura-se o espaço da exposição. Exposição em todos os sentidos: do universo dos performers, dos objetos cênicos, da música ambiente, dos vídeos projetados por todo o espaço. O aparente caos, como jogo interativo, conduz os espectadores a pequenos, múltiplos e continuamente reordenados lugares de experiência. Desenvolvem-se, então, fragmentadas memórias, lugares de afectos e perceptos, no dizer deleuziano, esgarçadas dramaturgias cotidianas, individuais e coletivas, numa constante busca do não dito, não expresso, não comunicado. O tempo é contínuo e ao mesmo tempo incompleto; o espetáculo não se configura como espetáculo no sentido de decorrer no tempo e espaço dramático convencional. Ele não acontece – ele está. Neste sentido, quando termina (é interrompido) não acaba realmente, é só o tempo que a sala de exposição (a galeria) necessita para interromper seu horário de funcionamento diário. Instalado no tempo da memória do espectador, ele permanece. A ausência, protagonista oculta do discurso cênico, amplia sua dimensão, quando os pequenos fragmentos de vida nunca totalmente conhecidos e reagrupados, marcam o sentido teatral da primeira. O presente nunca está lá; os vídeos, projetados sobre telas e corpos, os textos dos atores, tudo isso reflete a memória, vivida ou imaginada, em flashes de vivências possíveis, subjetividades dialógicas e a busca do outro, real ou desconhecido. 
A presença concreta e atuante dos artistas que normalmente permanecem ocultos em uma montagem de teatro, nesse caso, o iluminador e o dramaturgo, reforça a sensação de exposição de arte e vai além. Pressupondo-se a dimensão de laboratório de criação, pode-se acompanhar a atividade desses criadores em processo direto de experiência, manipulando suas ferramentas de criação cênica, refletores, projetores, textos espalhados pelo chão. A atitude contemplativa estabelece um estranhamento da própria realidade cênica, ao mesmo tempo conferindo teatralidade ao jogo proposto pela encenação.
Para concluir, essa duas experiências reafirmam o lugar incômodo e ao mesmo tempo potente da cena contemporânea, em que os sentidos de tempo, presença, corpo, virtual e real se reconfiguram como possibilidades de criação, potencializando o elemento da teatralidade, encarando a desagregação e a ruptura da linguagem como matéria prima, desafio da sala de ensaio, do encenador e do ator em diálogo com o espectador, jogo de ausências/presenças, sempre reinventado, às vezes em consonância e em outras vezes em conflito, mas sempre em busca de novas possibilidades de discurso cênico.