Grupo de pesquisa do CNPq que investiga práticas artísticas limítrofes e novas tessituras da linguagem cênica, por meio do estudo, problematização e experimentação de conceitos, procedimentos e dispositivos de criação relacionados às poéticas híbridas da cena contemporânea, em seus múltiplos aspectos.
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
domingo, 6 de outubro de 2013
ensaio de Clóvis Domingos publicado na 6ª edição da Performatus
A sexta edição da Revista Performatus (http://performatus.net/ edicoes/6/) já se encontra on-line!!!
Nesta edição há a publicação de um ensaio meu: "É o performer um imigrante?"
Essa revista é muito interessante e repleta de ensaios, imagens, estudos, traduções, resenhas e entrevistas abordando o universo da arte da performance.
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
COISA DO SI
“Coisa do si” é uma proposta de encontro entre criadores, a partir da investigação do teatro desessência – ópera da palavra e dança de expressão. Uma feitura em processo produzindo conexões vivas com a performance-teatro-cinema-
O acontecimento reúne os artistas Admar Fernandes, Clarissa Alcantara, Inês, Joyce Malta, Leandro Silva Acácio, Lissandra Guimarães, Sabrina Andrade, Saulo Salomão e Tereza Marinho. O processo teve início em julho de 2013 e agora abre as portas para 4 encontros com o público na Gruta (Horto), espaço que serviu de estadia para esta vivência.
Nove quadros se cruzam a partir da vivência de dois atos-processos – o corpobiográfico e o duplo si: um corpo é lançado no espaço e seu único objeto é ele mesmo, uma presença-ausência que se dispõe à vivência do ato de estar ali sendo multiplicitado. Cria-se um platô: "Um platô não é nada além disso: um encontro entre devires, um entrecruzamento de linhas, de fluxos, ou uma percolação — fluxos que, ao se encontrarem, modificam seu movimento e sua estrutura." Um encontro com o pensamento de Gilles Deleuze e Félix Guattari.
Sinopse
Escorreu uma coisa que não importa mais, a significância. Como, no meio desse mar revolto, aberto, oceânico, pode existir uma terra firme? Zona indiscernível. Os quadros começam a se misturar uns aos outros. Os corpos brincam e dançam e dançando ocupam todo o lugar. Multiplicação de estados. Um modo de existência que pede uma outra maneira de viver. Útero, gruta. Como parto de mim?
Ficha técnica
Criadores: Admar Fernandes, Clarissa Alcantara, Inês, Joyce Malta, Leandro Silva Acacio, Lissandra Guimarães, Sabrina Andrade, Saulo Salomão e
Vídeo e fotografia em ato/processo: Tereza Marinho
Colaboração: Mariana Teixeira
Coisa do si
Data: 4, 11, 18 e 25 de outubro, sextas-feiras
Horário: 21h
Local: Gruta! Espaço de Arte – rua Pitangui, 3.613c, Horto
Ingressos: Gratuito
Lotação: 15 pessoas
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
Mestrado em Artes Cênicas da UFOP
Aprovado pela Capes o projeto que institui o Programa de Mestrado em Artes Cênicas da UFOP!
http://www.capes.gov.br/avaliacao/cursos-novos-envio-de-propostas-e-resultado
http://www.capes.gov.br/avaliacao/cursos-novos-envio-de-propostas-e-resultado
Seminário Arte e Diferença
As inscrições para o Seminário Arte e Diferença já estão abertas.
O seminário acontecerá nos dias 24, 25 e 26 de outubro no Teatro Universitário da UFMG.
O Seminário Arte e Diferença pretende estabelecer um diálogo interdisciplinar entre as Artes e as áreas da Saúde Físico-Motora e Mental para pensar o local da diferença nos processos artísticos.
Existirão 3 Simpósios Temáticos que receberão inscrições para comunicação.
1- Arte e Saúde Mental;
2- Arte e Processos Criativos;
3- Arte e Inclusão
O seminário acontecerá nos dias 24, 25 e 26 de outubro no Teatro Universitário da UFMG.
O Seminário Arte e Diferença pretende estabelecer um diálogo interdisciplinar entre as Artes e as áreas da Saúde Físico-Motora e Mental para pensar o local da diferença nos processos artísticos.
Existirão 3 Simpósios Temáticos que receberão inscrições para comunicação.
1- Arte e Saúde Mental;
2- Arte e Processos Criativos;
3- Arte e Inclusão
Programação
Coordenação
Profa. Dra. Denise Araujo Pedron (UFMG)
Profa. Ms. Eliane Maria de Abreu (UEMG)
Prof. Ms. Clóvis Domingos dos Santos
Profa. Ms. Eliane Maria de Abreu (UEMG)
Prof. Ms. Clóvis Domingos dos Santos
- Dia 1 – 24/10
Manhã
08:00 – 08:30 Credenciamento – sala Otávio Cardoso – Teatro Universitário
08:30 – 09:00 Abertura
09:00 – 10:30 – Conferência de Abertura: Criação Artística, Pulsão e Sublimação – Prof. Guilherme Massara (UFMG)
11:00 – 12:30 – Mesa redonda: Arte e experiência criativa
Teatro desessência: o que nasce do esquecimento. Profa Dra. Clarissa Alcantara (N3Ps – Núcleo de Pesquisa)
Desassossego em Branco – Tuca Pinheiro, Oscar Capucho e Renata Mara.
Terceira Dança – Profa. Ms. Marcelle Louzada
Mediadora: Prof. Dra. Denise PedronTarde
Sessões de Comunicação
14:00 – 15:00 – Primeira Sessão de Comunicação
15:30 – 16:00 – Café
16:00 – 17:00 – Segunda Sessão de Comunicação
17:00 – 18:30 – Atividade Artística – Núcleo de Pesquisa N3Ps – Nômades Permanentes Pesquisam e Performam
• Exibição de vídeo e conversa com integrantes do núcleo
• Lançamento de livro: Corpoalíngua: performance e esquizoanálise
08:00 – 08:30 Credenciamento – sala Otávio Cardoso – Teatro Universitário
08:30 – 09:00 Abertura
09:00 – 10:30 – Conferência de Abertura: Criação Artística, Pulsão e Sublimação – Prof. Guilherme Massara (UFMG)
11:00 – 12:30 – Mesa redonda: Arte e experiência criativa
Teatro desessência: o que nasce do esquecimento. Profa Dra. Clarissa Alcantara (N3Ps – Núcleo de Pesquisa)
Desassossego em Branco – Tuca Pinheiro, Oscar Capucho e Renata Mara.
Terceira Dança – Profa. Ms. Marcelle Louzada
Mediadora: Prof. Dra. Denise PedronTarde
Sessões de Comunicação
14:00 – 15:00 – Primeira Sessão de Comunicação
15:30 – 16:00 – Café
16:00 – 17:00 – Segunda Sessão de Comunicação
17:00 – 18:30 – Atividade Artística – Núcleo de Pesquisa N3Ps – Nômades Permanentes Pesquisam e Performam
• Exibição de vídeo e conversa com integrantes do núcleo
• Lançamento de livro: Corpoalíngua: performance e esquizoanálise
- Dia 2 – 25/10
Manhã
Sessões de Comunicação
09:00 – 10:00 – Primeira Sessão de Comunicação
10:00 – 10:30 – Café
10:30 – 11:30 – Segunda Sessão de Comunicação
11:30 – 12:30 – Atividade Artística – Hoje são mistérios gozosos meus surtos psicóticos – vídeo-performance e bate papo com de Viviane Ferreira – Núcleo de Pesquisa Sapos e AfogadosTarde
14:00 – 16:00 – Mesa redonda: De perto ninguém é normal.
Música e saúde mental – Prof. Paulo Thomaz (CERSAM)
Teatro e saúde mental – Prof. Juliana Barreto (Núcleo de Pesquisa Sapos e Afogados)
Arte e Deficiência – Prof. Luciane Kattaoui Madureira (Crepúsculo Escola de Arte)
Mediadora: Profa. Ms. Eliane AbreuTarde
17:30 – 18:30 – Atividade Artística – Música (coordenação: Paulo Thomaz)
19:30 – Atividade Artística – Show – Edu Kneip apresenta “Ed Galantti e o tesouro do Morro do Castelo”
Sessões de Comunicação
09:00 – 10:00 – Primeira Sessão de Comunicação
10:00 – 10:30 – Café
10:30 – 11:30 – Segunda Sessão de Comunicação
11:30 – 12:30 – Atividade Artística – Hoje são mistérios gozosos meus surtos psicóticos – vídeo-performance e bate papo com de Viviane Ferreira – Núcleo de Pesquisa Sapos e AfogadosTarde
14:00 – 16:00 – Mesa redonda: De perto ninguém é normal.
Música e saúde mental – Prof. Paulo Thomaz (CERSAM)
Teatro e saúde mental – Prof. Juliana Barreto (Núcleo de Pesquisa Sapos e Afogados)
Arte e Deficiência – Prof. Luciane Kattaoui Madureira (Crepúsculo Escola de Arte)
Mediadora: Profa. Ms. Eliane AbreuTarde
17:30 – 18:30 – Atividade Artística – Música (coordenação: Paulo Thomaz)
19:30 – Atividade Artística – Show – Edu Kneip apresenta “Ed Galantti e o tesouro do Morro do Castelo”
- Dia 3 – 26/10
Manhã
10:00 – 12:00 Conferência de Encerramento: O próprio, o pensar poético e a criação artística – Prof. Dr. Antonio Jardim (UFRJ)
12:00 às 13:00 Atividade Artística- Espetáculo Teatral – Núcleo Sapos e AfogadosCarga Horária Total do Seminário: 22 horas
10:00 – 12:00 Conferência de Encerramento: O próprio, o pensar poético e a criação artística – Prof. Dr. Antonio Jardim (UFRJ)
12:00 às 13:00 Atividade Artística- Espetáculo Teatral – Núcleo Sapos e AfogadosCarga Horária Total do Seminário: 22 horas
Maiores informações aqui
terça-feira, 9 de abril de 2013
AQUI PERFORMAMOS COM OS MORTOS
Aqui Performamos com os Mortos
“Em Ouro Preto, redolente,
vaga um remoto estar - presente”.
Carlos Drummond de Andrade
Tudo é intervenção!
O Obscena propôs uma série de
intervenções cênico-performáticas como parte da programação do
Simpósio Internacional Corpolítico, ocorrido em Ouro Preto entre 11
e 15 de Março de 2013.
Simultaneamente aconteceram cinco
ações poético-urbanas: “Salve Padilha, cheia de Graça” (que
começou na Ponte Marília de Dirceu e terminou na Igreja do
Rosário); “Espaço Disponível: Anuncie Aqui” (que ocupou a
Feira de Artesanato perto da Igreja de São Francisco de Assis e
vários lugares do centro da cidade); “Infravermelho” (também
realizada na Ponte Marília de Dirceu) e “O Espaço do Silêncio”
(que juntamente com “O Suicidado”), que se instalou na Praça
Tiradentes.
O pesquisador e performer Matheus
Silva afirmou que criamos um “mar vermelho” que invadiu a cidade
barroca. Sim, nossas presenças afetaram o cotidiano de Ouro Preto.
Mas também acredito que a cidade performou. Cidade misteriosa, de
pura teatralidade, misto de religião e espetáculo, paisagem
habitada por moradores, turistas, estudantes, heróis e espíritos,
espaço vertiginoso no qual o passado e a História respiram juntos.
Nas palavras de Alexander Freitas
(2009:146): “o espaço arquitetônico de Ouro Preto,
metaforicamente, como a maré cheia, preside uma invasão – uma
imposição – da imagética setenticista ao presente”. Uma forte
intervenção urbana.
E penso que nossas ações, no
presente, de alguma forma, atualizaram o passado. Foram invadidas por
fatos históricos e pelo imaginário coletivo existente em Ouro
Preto. Os espaços interviram sobre nossos trabalhos artísticos numa
tessitura de tramas da memória. As igrejas e o som dos sinos, o
silêncio dos cemitérios, as ladeiras e seus candelabros, a arte
sacra, tudo é intervenção.
Fiquei pensando: o que seria
performar num espaço teatralizado que grita suas cores e formas? Que
espetaculariza sua História? Lugar que cotidianamente acontece uma
performance dos moradores e personagens de rua? Acredito que seja
possível dialogar com esses espaços e suas simbologias. E mais:
praticá-los de forma liminar e fronteiriça. Duplicar seus usos e
sentidos. Nossas ações e manifestações cênicas “transbordam
as taxonomias e configuram-se como corpos mestiços a partir dos
entrecruzamentos e hibridações entre os dispositivos das artes
cênicas e visuais” (DIÉGUEZ, 2011:51), elementos preponderantes
na cultura barroca. Corpos políticos por entrecruzarem tempos e
espaços. Abordarei tal aspecto no tópico a seguir.
Espaços Entrecruzados:
ATUALIZE AQUI
A cruz é a síntese de dois
espaços de poder da arquitetura barroca: a igreja e os cemitérios
(FREITAS, 2009). A cruz também é o encontro de duas linhas
temporais: de um momento que segue seu fluxo no instante se deparando
com um momento já vivido. Morte e vida. Acontecimento e acontecido.
Nesse “entre-lugar”, nós obscênicos, acontecemos.
A Padilha de Erica Vilhena se
metamorfoseou numa espécie de santa, caminhando descalça como um
ato de fé e sacrifício, e depositando oferendas (terços, conchas e
pétalas de rosa) nas portas das igrejas que emprestam seus nomes em
homenagem às mártires católicas. Um corpo em PROCISSÃO. A cada
estação, cada parada, uma ação ritual. Uma Pomba-Gira recatada e
bem comportada desfilou pelas ruas de Ouro Preto e a sensação
verbalizada pela performer, era de estar sendo vigiada o tempo todo.
A iconografia barroca nos revelava que a cidade tem olhos. Muito
diferente de uma caminhada perigosa, feita por uma Padilha atrevida,
numa outra experimentação ocorrida no baixo centro de Belo
Horizonte, nas ladeiras ouro-pretanas sentimos “pulular os
olhos-da-cidade, que aqui, são explicitamente metáforas dos
olhos-de-Deus” (FREITAS, 2009: 200).
Fotos de Luciane Trevisan
Santa Efigênia, Nossa Senhora do
Rosário, Nossa Senhora do Pilar ou Marília de Dirceu, entre outras
figuras femininas, se atualizaram no corpo peregrino da performer.
Inclusive, Erica distribuiu suspiros na conhecida “Ponte dos
Suspiros”, no bairro Antônio Dias, local no qual se conta que
Marília de Dirceu se encontrava com seu amado Tomás Antônio
Gonzaga. Nessa gestualidade performática cruza-se uma composição
corporal, espacial e temporal. Reencontro de arquiteturas.
Presentificação de um tempo que ainda dura.
Da mesma forma que a questão do
suicídio e extermínio dos nossos índios guaranis kaiowás (tratada
nos trabalhos “Espaço do Silêncio” e “O Suicidado”) voltou
a ser denunciada na Praça central, local no qual Tiradentes foi
assassinado. Nina Caetano e suas pequenas cruzes, quase uma santa
colocada num altar branco que aos poucos se mancha de vermelho.
Leandro Acácio, num esforço de resistência física e psicológica,
a sustentar um pedaço de tronco seco corporificando a imagem de um
crucificado. O silêncio que se converte em discurso. Leandro e seu
“corpo-estátua”. Ambos os trabalhos nos olham, criando quase um
constrangimento.
Além da possibilidade de se
erguer publicamente um monumento, ainda que temporário (em memória
da injustiça cometida contra os expatriados indígenas) sob outro
“palco” permanente, a praça. Na ocupação espacial desses dois
trabalhos, temos uma teatralidade e performatividade em estado de
permanente fricção, atravessadas por narrativas históricas (logo
ficcionais) e irrupções do real.
As imagens de uma amordaçada e
um enforcado, seus corpos quase imóveis e se torna impossível não
se lembrar da morte do famoso inconfidente Tiradentes. Corpos
rendidos. Re-ligação de personagens rebelados em tempos
diferenciados. Os turistas- espectadores que fotografavam aquele
acontecimento cênico registravam o espaço e seu duplo, a
sobreposição de tempos, fatos, atos e ventos.
Em “Infravermelho”, mais uma
mulher, agora cega, carregando maçãs do amor e tateando o corpo de
velhas pedras e muros da cidade. Marcelle Louzada, impossibilitada de
ver o que se passava e ao mesmo tempo se oferecendo como um corpo em
plena visualidade poética. Um quadro vivo de pintura impressionista.
Ela se arrastava, tropeçava, buscava pontos de apoio e também
parecia ser uma santa fugitiva de algum altar. Em outros momentos era
como ter a visão de um “corpo fantasma” como uma daquelas almas
perdidas que rondam o fabulário ouro-pretano. Os olhos tampados,
como que furados e vazados, me remetiam à ideia de um corpo
torturado.
Em “Espaço Disponível:
Anuncie Aqui” (com Matheus Silva, Joyce Malta, Lissandra Guimarães,
Flávia Fantini e Sabrina Andrade), a provocação ao comércio
local, às feiras, à herança dos exploradores. Nem tudo reluz e nem
tudo é ouro. Ainda haveria espaços possíveis em Ouro Preto para se
divulgar a venda de alguma coisa? O turismo alimenta a economia e
tudo é propaganda, disputa, indicação de hotel e restaurante; se
paga para se visitar as igrejas e museus. Até quando seduzidos e
viciados pela História?
Além da escolha nessa ação, do
corpo como suporte para pequenos textos compondo um cartaz. Também
uma possível alusão às placas das repúblicas estudantis anexadas
aos corpos dos universitários. Outra aproximação. Anuncie aqui:
seu poder, o peso da tradição, o machismo secular, sua
perversidade. Anuncie aqui: “Bixo”, lixo, nicho de corpos
domesticados. Anuncie aqui a humilhação e a violência, feito as
placas com os valores de compra dos negros africanos contrabandeados
para servirem de escravos para seus senhores europeus.
No conjunto desta
“aparição-presentação” artística tudo dialoga com esse
“mar vermelho”: sangue, dor, fé, luxo, ostentação,
sobrenatural, espaço e poder.
Uma vez alguém proclamou: “Aqui
em Ouro Preto andamos sobre os mortos”. Naquela tarde de
quinta-feira, 14 de Março, poderíamos dizer: Aqui performamos com
eles. Uma experiência fora do tempo. Eles reviveram através de
nossos trabalhos. Pois estão vivos nos espaços que escolhemos
ocupar.
Espaços em Branco
Caí numa armadilha? Estarei de
alguma forma historicizando uma vivência coletiva numa visão
pessoal do que fizemos? Tudo o que aqui está escrito já é passado.
Foi-se. É uma cruz. Tudo se afoga com aquele “mar vermelho”:
referências, identidades, calendários e contextos.
Que venha o desconhecido e o
imprevisível!
Agora desejo olhar para nossas
pesquisas como corpos com tatuagens de rena, efêmeras e livres para
novos lugares e encontros. Podendo ser bicho, gente, coisa, cor,
onda, linha, vôo, nada. Anúncios impossíveis.
Espaços em branco: PERFORME
AQUI!
Referências:
DIÉGUEZ, Ileana. Cenários
Liminares: teatralidades, performances e política. Tradução de
Luis Alberto Alonso e Angela Reis. Uberlândia: EDUFU, 2011.
FREITAS, Alexander. Imagens da
Memória Barroca de Ouro Preto: o espaço barroco como educador do
imaginário ouro-pretano. Doutorado. Faculdade de Educação. São
Paulo: USP, 2009. 308 p.
sexta-feira, 22 de março de 2013
Ensaios sobre a ausência: Duas experiências – O Projeto Voyzeck
e Um noturno para o chá das cinco.
Fotografia é o retrato
de um côncavo, de uma falta, de uma ausência? (Clarice Lispector)
Dois espetáculos presentes na
programação do CORPOLÍTICO, esses trabalhos envolveram a presença de
professores e alunos do curso de artes cênicas da UFOP e refletem as
investigações atuais desenvolvidas no Departamento de Artes sobre questões da
cena contemporânea. A presença do corpo
e relações decorrentes com novas interações com novas tecnologias e mídias
artísticas tornam-se pontos fulcrais na produção de significados cênicos, e
conduzem o olhar espectador a novas dimensões, físicas e virtuais, de diálogo
com elementos tradicionalmente identificados como construtores da natureza
cênica, a saber, o espaço, a luz, o texto, o ator e a cenografia. Opta-se,
nesse texto, por abordar esses espetáculos como exemplos dialógicos e
concernentes às discussões encaminhadas durante todo o evento, onde imbricações
estéticas e políticas nortearam as múltiplas reflexões e vozes que se
manifestaram durante os debates e mesas redondas, devido às características que
vamos, a seguir, tentar refletir.
Em Projeto Voyzeck, percebe-se, desde o início a dicotomia do
discurso: os atores não estão lá. Lá, digamos, diante do público, como se
espera de uma montagem teatral. Concebido a partir de dois espaços de
interação, um estúdio e uma sala de apresentação, a relação dos espectadores,
dispostos em uma relação aparentemente tradicional de frontalidade entre
palco-plateia, provoca uma sensação de
descompasso inicial quando se percebe que os atores não estão presentes, mas se
apresentam projetados sobre uma parede branca. Após um estranhamento inicial, a
montagem se estabelece em um lugar entre cinema, instalação e performance, devido às interações da
música de uma bateria tocada ao vivo, atores que entram e saem da sala e
dialogam com as imagens projetadas, e sons que se escutam em uma sala ao lado.
O espetáculo nos convida a sair pela porta de acesso que permanece aberta o
tempo todo, causando curiosidade quando se percebe que algo acontece em outro
lugar, que não se tem acesso diretamente através das imagens na tela. Nesse
sentido, um outro jogo se instala: a
curiosidade de apreender o todo, saber o que acontece no outro ambiente,
relacionar através da experiência do espectador esses vários elementos que
evoluem em fragmentos, indícios, rasuras e vestígios de informações, mediadas
pelo vídeo, virtualidade e ausência simultâneas. Identificando-se essas
questões potenciais, o deslocamento de espaço apresenta-se, ao mesmo tempo,
como uma transgressão e uma possibilidade, ambos os elementos caracterizando o
jogo interativo entre o espectador e a cena. Na outra sala, a surpresa: um
estúdio, como de TV, está instalado, onde os atores interpretam diante da câmera.
Algo de voyeurístico e de proibido, a invasão do espaço de gravação, onde o
diretor/técnico fornece instruções aos atores e a cena gravada é exibida em
tempo real na outra sala. Está então, estabelecida claramente a regra do jogo:
o espectador busca algo que já se foi, o acontecido, mesmo em tempo real, nunca
totalmente apreendido; Em um espaço, o corpo midiatizado, torna-se artificialmente
construído como uma referência passada, ausente, como imagem projetada, artificialmente
instaurada em um virtual espaço-tempo de experiência. Na outra sala, o silêncio
do estúdio, o corpo físico presente e desconstruído do sentido da experiência
do aqui e agora, catapultado para a possibilidade do vir a ser, reconfigurado
pelo olho da câmera. Entre esse universo de possibilidades situa-se a
experiência do espectador, reconstruindo as informações, deslocando-se pelos
espaços, reunindo os fragmentos da cena, dos corpos, do personagem Voyzeck
estilhaçado em presente e passado, simultaneamente reinventado.
Em Um noturno para o chá das cinco, instaura-se o espaço da exposição. Exposição em todos os
sentidos: do universo dos performers, dos objetos cênicos, da música ambiente,
dos vídeos projetados por todo o espaço. O aparente caos, como jogo interativo,
conduz os espectadores a pequenos, múltiplos e continuamente reordenados
lugares de experiência. Desenvolvem-se, então, fragmentadas memórias, lugares
de afectos e perceptos, no dizer deleuziano, esgarçadas dramaturgias cotidianas,
individuais e coletivas, numa constante busca do não dito, não expresso, não
comunicado. O tempo é contínuo e ao mesmo tempo incompleto; o espetáculo não se configura como espetáculo
no sentido de decorrer no tempo e espaço dramático convencional. Ele não acontece – ele está.
Neste sentido, quando termina (é interrompido) não acaba realmente, é só o tempo
que a sala de exposição (a galeria) necessita para interromper seu horário de funcionamento
diário. Instalado no tempo da memória do espectador, ele permanece. A ausência,
protagonista oculta do discurso cênico, amplia sua dimensão, quando os pequenos
fragmentos de vida nunca totalmente conhecidos e reagrupados, marcam o sentido
teatral da primeira. O presente nunca está lá; os vídeos, projetados sobre
telas e corpos, os textos dos atores, tudo isso reflete a memória, vivida ou
imaginada, em flashes de vivências possíveis, subjetividades dialógicas e a
busca do outro, real ou desconhecido.
A presença concreta e atuante dos
artistas que normalmente permanecem ocultos em uma montagem de teatro, nesse
caso, o iluminador e o dramaturgo, reforça a sensação de exposição de arte e
vai além. Pressupondo-se a dimensão de laboratório de criação, pode-se acompanhar
a atividade desses criadores em processo direto de experiência, manipulando
suas ferramentas de criação cênica, refletores, projetores, textos espalhados
pelo chão. A atitude contemplativa estabelece um estranhamento da própria
realidade cênica, ao mesmo tempo conferindo teatralidade ao jogo proposto pela
encenação.
Para concluir, essa duas
experiências reafirmam o lugar incômodo e ao mesmo tempo potente da cena
contemporânea, em que os sentidos de tempo, presença, corpo, virtual e real se
reconfiguram como possibilidades de criação, potencializando o elemento da
teatralidade, encarando a desagregação e a ruptura da linguagem como matéria
prima, desafio da sala de ensaio, do encenador e do ator em diálogo com o
espectador, jogo de ausências/presenças, sempre reinventado, às vezes em
consonância e em outras vezes em conflito, mas sempre em busca de novas possibilidades
de discurso cênico.
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